A segunda corrida por novos domínios: o que mudou (e o que ainda não sabemos) na rodada 2026 do ICANN
Catorze anos depois da rodada histórica de 2012, o ICANN encerrou em 12 de agosto de 2026 a janela de aplicação para uma nova geração de gTLDs (domínios de topo genéricos, como .com, .app ou .xyz). O resultado imediato foram mais de 1.600 pedidos primários — um número relevante, ainda que menor do que os 1.930 pedidos (cobrindo 1.409 strings distintas) recebidos em 2012. Mas comparar apenas o volume de pedidos entre as duas rodadas conta só parte da história: as regras do jogo mudaram bastante, e é isso que promete deixar essa nova leva de domínios mais cara e mais imprevisível para quem está disputando os nomes mais concorridos.
O fim do “perder o leilão de propósito”
A mudança mais relevante da rodada 2026 é o fim da resolução privada de disputas de contenção (quando duas ou mais empresas pedem o mesmo gTLD). Em 2012, boa parte desses conflitos era resolvida em leilões privados entre os próprios candidatos, com dezenas de milhões de dólares trocando de mãos por fora do ICANN — um modelo de negócio que, para alguns “portfolio applicants”, virou basicamente uma forma de lucrar perdendo a disputa de propósito.
Essa porta está oficialmente fechada. O guia de regras (Applicant Guidebook) da rodada 2026 estabelece que o próprio processo do ICANN — incluindo o leilão organizado pela entidade — é o único caminho permitido para resolver contenções. Qualquer outro método, “como leilões privados ou joint ventures, ou qualquer arranjo desenhado para resolver a disputa de forma privada”, está explicitamente proibido. As penalidades para quem tentar contornar a regra também não são brandas: vão de desqualificação da rodada atual e de rodadas futuras até perda total das taxas de avaliação, negação de reembolsos, multas e ação legal.
Como consequência prática, ganhar uma disputa por um domínio concorrido agora significa necessariamente pagar mais — para o próprio ICANN, no leilão de “último recurso” — e não mais negociar por fora com o concorrente.
Um buraco no destino do dinheiro
Aqui está o ponto que mais chama atenção entre quem acompanha de perto o tema: mesmo proibindo a resolução privada, o novo Guidebook não diz nada sobre para onde vai o dinheiro arrecadado nos leilões do ICANN. Uma análise de fonte especializada do setor revisou o módulo de resolução de contenção do documento por completo e não encontrou nenhuma cláusula sobre destinação, reserva ou uso específico dessas receitas — a palavra “proceeds” (receitas) aparece uma única vez no texto, e em uma frase sem relação com o tema.
Enquanto isso, o dinheiro da rodada anterior (2012) continua sendo usado para financiar a atual: uma resolução do board do ICANN, de 26 de março de 2026, aprovou o uso de até US$ 4,9 milhões adicionais desses recursos antigos para ampliar o Applicant Support Program (programa de apoio a candidatos com menos recursos) de 45 para até 75 beneficiários. Ou seja, o dinheiro do leilão de 2012 — levantado sob um rulebook que ao menos prometia responder a essa pergunta — está subsidiando candidatos de uma rodada cujo próprio módulo de contenção simplesmente não aborda o assunto.
Como funciona agora: strings substitutas
Uma novidade estrutural da rodada 2026 é a possibilidade de o candidato indicar, já no momento do pedido, uma “string substituta” (replacement string) — uma segunda opção de nome que passa a valer automaticamente caso o pedido original entre em disputa de contenção. Mais de 1.100 dos 1.600+ pedidos enviados já vieram acompanhados dessa segunda opção. Na prática, isso deve reduzir o número de disputas caras e aumentar a quantidade de gTLDs que efetivamente chegam a ser lançados, além de potencialmente reduzir reembolsos por desistência.
Quem está pedindo o quê
Mesmo antes do “Reveal Day” oficial do ICANN — previsto para até nove semanas após o fechamento da janela, ou seja, no fim de outubro de 2026 —, alguns pedidos já vieram à tona por divulgação voluntária dos próprios candidatos.
Porkbun + Dynadot. Os CEOs das duas registradoras — Ray King (Porkbun) e Todd Han (Dynadot) — formaram uma entidade batizada de Oinkadot, operando separada das duas empresas, para disputar 25 strings, a um custo estimado de US$ 5,675 milhões só em taxas de avaliação (US$ 227 mil por string). A lista inclui nomes como .anime, .dragon, .ghost, .manga, .panda, .king, .queen e .zzz. King não é novo nesse jogo: ele já havia conquistado .design, .wiki, .ink, .gay e .tattoo na rodada de 2012, antes de vender a Top Level Design para a GoDaddy.
Telegram. O aplicativo de mensagens confirmou (segundo fontes ligadas ao projeto) o pedido pelo gTLD .gram. A ideia seria mapear cada nome de usuário do Telegram — mais de 1 bilhão de contas mensais ativas — para um subdomínio do tipo usuario.gram, com sites gerados por IA a partir de prompts em linguagem natural, alinhado à parceria recente do Telegram com a xAI para integrar o modelo Grok à plataforma. É importante notar que, nesse modelo, os endereços seriam subdomínios controlados pelo Telegram, não domínios de propriedade independente dos usuários — e o Telegram passaria a ser o próprio operador de registro, respondendo por abusos e remoções em uma escala potencialmente gigantesca.
Outros candidatos. A USA Made in America Inc., cofundada pelo veterano do setor Colin Campbell (do extinto .CLUB) e por Michele Van Tilborg, anunciou pedido pelo .factory, levantando uma oferta privada de até US$ 10 milhões especificamente para financiar a candidatura.
Um alerta de segurança que já começa antes do lançamento
A chegada de novos gTLDs historicamente vem acompanhada de um problema conhecido: abuso concentrado logo no início da vida da extensão. Levantamentos da Interisle Consulting mostram que os gTLDs mais novos, apesar de responderem por cerca de 12% do mercado de domínios, concentram quase a metade de todos os domínios reportados por cibercrime — e a maior parte dos registros comprovadamente maliciosos. Analistas de segurança já recomendam que equipes de inteligência de ameaças comecem a monitorar o “Reveal Day” do ICANN e tratem, por exemplo, uma eventual aprovação do .gram como um novo vetor de phishing e impersonação a ser incluído em pipelines de detecção.
O que vem a seguir
Com a janela de aplicação fechada, o calendário agora segue para checagens administrativas e, na sequência, o Reveal Day — quando o ICANN publica a parte pública dos pedidos válidos, revelando de forma oficial quais strings foram pedidas e por quem, além de expor as disputas de contenção existentes. A expectativa é de que isso ocorra até o fim de outubro de 2026, com um cronograma mais detalhado das etapas seguintes (avaliação formal, objeções da comunidade e, quando necessário, os leilões de último recurso) a ser anunciado em meados de setembro.
Para quem opera no setor de hospedagem e domínios, os pontos a acompanhar de perto são: o valor final que os leilões do ICANN vão movimentar em 2026-2027 (e se a entidade eventualmente vai esclarecer o destino desses recursos), o resultado da candidatura do Telegram, e como o mercado vai reagir à ausência do “leilão privado” como estratégia de saída para portfolio applicants — um modelo de negócio que, até a rodada anterior, era parte relevante da economia dos novos gTLDs.


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