Data Center admin 11 min de leitura

Onde estão os grandes data centers brasileiros? O mercado nacional perdeu espaço para grupos internacionais?

Se você abrir o mapa dos maiores data centers em operação no Brasil hoje e for atrás de quem está por trás de cada logotipo, vai notar um padrão: quase todos pertencem, hoje, a fundos americanos, europeus ou asiáticos. Equinix, Digital Realty, SBA Communications, Aligned, I Squared Capital, DigitalBridge (agora sob controle da japonesa SoftBank), Almaviva. A lista de compradores internacionais é longa — e cresce a cada ano.

Isso não significa que o Brasil ficou de fora da festa. Pelo contrário: o país é hoje o maior mercado de data centers da América Latina, concentra cerca de 48% da capacidade instalada da região e 71% de tudo que está em construção. O problema ou a curiosidade, dependendo do ponto de vista é que essa expansão bilionária está sendo majoritariamente, financiada e controlada por capital estrangeiro. As empresas que nasceram brasileiras, em sua maioria, venderam o controle para gigantes globais nos últimos quinze anos.

Vamos reconstruir essa história.

A linha do tempo das aquisições

2011-2014 — ALOG vira Equinix. A ALOG Data Centers do Brasil, fundada no Rio de Janeiro em 2005 e depois fundida com a paulista .comDomínio, foi uma das pioneiras do setor no país. Em 2011, a americana Equinix e o fundo de private equity Riverwood Capital compraram 90% da empresa por cerca de US$ 127 milhões. Três anos depois, em 2014, a Equinix adquiriu os 47% restantes por US$ 225 milhões e absorveu de vez a marca à sua plataforma global, hoje ALOG não existe é apenas uma submarca local da Equinix.

2016 — Ativas vira Sonda. A mineira Ativas Data Center, criada em 2010 com participação da Cemig (a estatal de energia de Minas Gerais) e do grupo Asamar, foi comprada pela chilena Sonda, que investiu R$ 114 milhões por 60% da empresa. Em 2017 a Sonda completou a aquisição dos 40% restantes. A companhia chilena chegou a estudar a venda de todo o seu portfólio latino-americano de data centers em 2023, sinal de como esse tipo de ativo tem girado de mão em mão dentro do próprio universo de investidores estrangeiros.

2018 — Ascenty vira Digital Realty. Uma das maiores operadoras nascidas no Brasil, a Ascenty (fundada em 2010) foi vendida pelo fundo americano Great Hill Partners para a americana Digital Realty por US$ 1,8 bilhão, em parceria com a gestora canadense Brookfield Infrastructure, que ficou com 49% da joint venture. Hoje a Ascenty é uma das maiores plataformas de data centers da América Latina — e 100% controlada por capital não brasileiro.

2020 — UOL Diveo vira Scala. O UOL vendeu sua divisão de data centers, a UOL Diveo, para o fundo americano Digital Colony (hoje DigitalBridge) por algo entre US$ 300 milhões e US$ 400 milhões. Nascia a Scala Data Centers, que se tornaria uma das plataformas de maior crescimento do continente, com bilhões de dólares projetados em investimento até 2027. Em dezembro de 2025, a própria DigitalBridge — controladora da Scala — foi comprada pela japonesa SoftBank por US$ 4 bilhões, o que significa que a Scala trocou de “dono estrangeiro” sem nunca ter sido brasileira de fato.

2022-2023 — Matrix vira SBA Edge. A paulista Matrix, uma das operadoras mais conectadas de São Paulo, foi comprada pela americana SBA Communications (dona de torres de telecomunicações na América) e rebatizada como SBA Edge Brazil em 2023.

Dezembro de 2022 — Odata vira Aligned. A Odata, criada em 2015 pelo fundo brasileiro Pátria Investimentos, havia se tornado uma das plataformas de crescimento mais agressivo da região, com operações no Brasil, Colômbia, México e Chile. O Pátria vendeu 100% do negócio para a americana Aligned Data Centers, em transação avaliada em cerca de US$ 1,8 bilhão, encerrando o ciclo do fundo brasileiro no setor.

Agosto de 2025 — Tivit vira Almaviva. A Tivit, uma das marcas mais tradicionais de TI e data center do país (controlada desde 2010 pelo fundo britânico-americano Apax Partners), foi vendida ao grupo italiano Almaviva, formando uma companhia combinada com receita de R$ 12 bilhões.

Abril de 2026 — Elea recebe controle da I Squared Capital. Talvez o caso mais simbólico e recente: a Elea Data Centers, fundada em 2018/2019 pela holding brasileira Piemonte e apontada até então como uma das últimas grandes plataformas nacionais independentes, vendeu 67% do seu capital para a gestora global de infraestrutura I Squared Capital. A Elea tem planos de superar 1 GW de capacidade e vai precisar de mais de US$ 10 bilhões em capital para viabilizar essa expansão — dinheiro que, evidentemente, não viria só do sócio brasileiro original.

O padrão que emerge dessa sequência é claro: fundos e empresas brasileiras costumam ser boas em criar e dar os primeiros passos dessas plataformas, mas raramente conseguem sustentar sozinhas o ritmo de capital que o setor passou a exigir — sobretudo na era da infraestrutura de IA, quando construir um único data center de grande porte pode custar bilhões de dólares.

Quem ainda é (ou continua sendo) brasileiro

Apesar da onda de vendas, nem tudo migrou para mãos estrangeiras. Alguns nomes relevantes seguem sob controle nacional, ainda que com nuances importantes:

  • V.tal / Tecto Data Centers — Nascida da compra da malha de fibra óptica da Oi em 2021, a V.tal é controlada por fundos do BTG Pactual (65,27% do capital), com participação minoritária do fundo soberano de Singapura (GIC) e do fundo de pensão canadense CPP Investments. Em 2024, a empresa separou sua unidade de data centers sob a marca Tecto, com investimento inicial de US$ 1 bilhão. É hoje um dos exemplos mais fortes de operação de escala relevante com controle majoritário brasileiro — embora com capital estrangeiro relevante na mesa.
  • FS (Fibra Sistemas) — Empresa brasileira de segurança cibernética e infraestrutura de rede que anunciou planos de investir R$ 1,8 bilhão na construção de três data centers no país, entrando no setor a partir de outro núcleo de negócio.
  • Diversos operadores regionais e de colocation de menor porte — muitos deles fora do radar internacional, atendendo nichos locais, públicos específicos (bancos, governos estaduais, operadoras de telecom regionais) e mercados fora do eixo Rio–São Paulo — continuam sob controle 100% nacional, embora sem a escala para disputar contratos de hyperscalers globais.

Ou seja: o capital brasileiro não desapareceu do setor, mas migrou, em boa parte, para posições minoritárias, joint ventures ou nichos onde a competição direta com os hyperscalers e REITs internacionais não é obrigatória.

Por que é tão difícil competir com o capital global

Existe uma explicação relativamente simples para essa consolidação: escala de capital. Segundo estimativas do setor, hyperscalers como Amazon (AWS), Microsoft (Azure), Google, Meta e Oracle devem investir, juntos, cerca de US$ 725 bilhões em 2026 — alta de aproximadamente 77% sobre 2025, com cerca de três quartos desse valor destinado especificamente a infraestrutura de IA. Para efeito de comparação, esse montante se aproxima do PIB da Argentina.

Diante de números dessa magnitude, um fundo de private equity brasileiro de médio porte simplesmente não tem musculatura financeira para financiar sozinho a construção de um campus de data centers de vários gigawatts — o tipo de projeto que hoje define quem fica com os contratos mais valiosos dos hyperscalers. Construir um único data center hyperscale de grande porte pode exigir investimentos da casa de centenas de milhões a bilhões de dólares, considerando terreno, energia, resfriamento, equipamentos importados (sujeitos a tarifas de importação de até 100% sobre hardware de TI, no modelo tributário anterior ao Redata) e prazos de obra que se estendem por anos.

Há ainda o fator liquidez: fundos de private equity brasileiros como o Pátria têm ciclo de vida definido — investem, fazem a empresa crescer e, em algum momento, precisam vender para devolver capital aos cotistas. Foi exatamente o que aconteceu com a Odata: o fundo precisava de saída, e o comprador com bolso suficiente para pagar US$ 1,8 bilhão pela operação latino-americana veio de fora.

Soma-se a isso a disponibilidade de crédito em dólar a taxas mais baixas para investidores globais, o acesso a mercados de capitais mais profundos (em 2025, a emissão de títulos de dívida ligados a data centers bateu recorde global, com US$ 428 bilhões captados) e a familiaridade dos hyperscalers em fechar contratos de longo prazo diretamente com operadores que já têm presença e credibilidade em dezenas de países.

As oportunidades que ainda restam para quem pensa em nichos

Nem tudo é concentração, porém. Justamente porque os grandes players internacionais tendem a mirar projetos de hiperescala nos eixos consolidados (São Paulo e, em menor medida, Rio de Janeiro), abrem-se janelas para operadores menores e mais ágeis em segmentos específicos:

Edge computing e colocation regional. A demanda por baixíssima latência para aplicações de IA, streaming, jogos e serviços financeiros tem levado ao surgimento de facilities menores fora do eixo Rio–São Paulo. Cidades do Nordeste (Fortaleza, por exemplo, com pontos de aterrissagem de cabos submarinos) e do Sul do país vêm ganhando projetos justamente para atender demandas locais que não justificam a construção de um hyperscale, mas exigem presença física próxima ao usuário final.

Data centers sustentáveis / energia limpa. O Brasil tem uma matriz elétrica majoritariamente renovável (hidrelétrica, com crescente participação solar e eólica), o que é um diferencial competitivo global — em um momento em que a pegada de carbono e o consumo de água dos data centers de IA viraram tema sensível internacionalmente. O novo regime tributário Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center), aprovado na Câmara dos Deputados em fevereiro de 2026 e ainda em tramitação no Senado, condiciona benefícios fiscais — suspensão de tributos federais por cinco anos na compra de equipamentos — ao uso de energia limpa e a metas de eficiência hídrica (Water Usage Effectiveness abaixo de 0,05 litro por kWh, segundo projetos já anunciados). Isso cria espaço para operadores que se posicionem especificamente como “verdes” desde a concepção do projeto, algo em que players menores e mais flexíveis podem se mover mais rápido que gigantes com portfólios legados.

Aproveitamento de energia desperdiçada. No Nordeste, mais de 20% da geração renovável tem sido desligada por falta de demanda local e de capacidade de transmissão — um excedente de energia que poderia, em tese, alimentar novos complexos de data center a custo competitivo, favorecendo projetos regionais fora dos polos tradicionais.

IA aplicada a setores verticais e serviços gerenciados. Enquanto os hyperscalers disputam a infraestrutura bruta (processamento, GPU, armazenamento em escala), ainda há espaço relevante para operadores brasileiros oferecerem camadas de serviço mais próximas do cliente final: hospedagem gerenciada, compliance com legislação de dados local (LGPD), suporte em português e SLAs adaptados a setores regulados como bancos e órgãos públicos — áreas em que a proximidade e o conhecimento do mercado local ainda pesam a favor de operadores nacionais.

Parcerias e posições minoritárias. O caso da V.tal/Tecto mostra um caminho alternativo: em vez de tentar competir sozinho pelo capital necessário para hiperescala, o controlador brasileiro busca sócios internacionais (fundos soberanos, fundos de pensão) mantendo o controle acionário e a governança em mãos nacionais — uma estratégia de “internacionalizar o capital sem internacionalizar o comando”.

O panorama geral

O mercado brasileiro de data centers foi avaliado em cerca de US$ 2,95 bilhões em 2025 e projeta-se que ultrapasse os US$ 6 bilhões até 2030, num ritmo de crescimento anual composto acima de 14%. Com o avanço do Redata e o apetite dos hyperscalers por infraestrutura de IA, estimativas de mercado chegam a falar em R$ 100 bilhões por ano em investimentos potenciais e numa multiplicação da capacidade instalada de 750 MW para 3 GW até 2032.

É um mercado em franca expansão — só que, ao que tudo indica, essa expansão continuará sendo liderada por capital internacional. As empresas brasileiras que resistem como controladoras relevantes (a exemplo da V.tal) são hoje exceção, não regra. A pergunta que fica para o setor nacional não é mais “como evitar que gigantes estrangeiros comprem os data centers brasileiros” — esse trem já passou — mas sim “em quais nichos específicos o capital e o conhecimento local ainda conseguem construir posições defensáveis diante da avalanche de investimento global”.

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